Confesso: por muito tempo tive medo de voar. Não de viajar — de voar. Principalmente de voos longos. Foi só depois dos 50 anos que resolvi enfrentar esse medo, e a cidade escolhida para essa estreia internacional foi Madri.
Foi paixão à primeira vista. E se você também está pensando em dar esse primeiro passo lá fora, mais tarde do que “seria o esperado”, posso dizer com convicção: Madri é o lugar certo para começar.
Por que Madri acolhe tão bem todas as idades

Madri é uma cidade viva, que respira diversidade em cada esquina — e isso inclui uma relação muito bonita com a terceira idade. É comum ver, nos bares e tabernas, senhores de cabelos brancos tomando sua caña (o clássico copo pequeno de cerveja), um vinho ou um vermute, que os madrilenhos adoram. É uma cidade que dorme tarde, simplesmente porque a vida ali chama todo mundo para a rua.
Onde ficar: recomendo muito o bairro de Malasaña, e indico a região para todas as idades — é central, viva e permite fazer praticamente tudo a pé.

Aliás, foi exatamente assim que caminhei por Madri: quase sem usar transporte público. Bem localizada, dava para ir a pé a quase todos os pontos turísticos — e vale muito a pena caminhar por essa cidade. Você anda um pouco, entra numa loja, dá uma olhada, volta a caminhar. Mais alguns passos e já está numa taberna, pedindo qualquer bebida (pode ser até um refrigerante) e ganhando uma tapa de cortesia para acompanhar. Sai da taberna, segue caminhando até um monumento ou ponto turístico, para para fotos — e quando vê, já está em outra taberna, com um tinto de verano na mão e mais tapas na mesa.
Um dia em Madri: o roteiro que eu fiz
Para te dar uma ideia prática do ritmo (tranquilo, mas cheio de descobertas), aqui vai o roteiro de um dos meus dias por lá:
Manhã — Rua Fuencarral até a Gran Vía
Café da manhã no hotel e, por volta das 10h, saí para conhecer o entorno. Caminhei pela Rua Fuencarral, apreciando vitrines, até desembocar na Gran Vía.
Estação de metro Gran Vía

Do outro lado da avenida já dá para avistar a réplica do templete histórico que marca a entrada da estação — inaugurada em 2021, ela recria o acesso original construído no início do século XX pelo arquiteto Antonio Palacios. Rende ótimas fotos e vale uma pausa para apreciar a história por trás do detalhe arquitetônico.
Edifício Telefónica

Praticamente em frente a estação do metro, Gran Via, é um marco da arquitetura europeia: o primeiro arranha-céu de Madri e o mais alto da cidade em sua época. Vários andares abrigam exposições de arte, tecnologia e oficinas gratuitas — vale a visita, mesmo que rápida.
Primark e Plaza de Callao

Eu segui pela Gran Vía até a famosa loja Primark, conhecida pelos preços baixos e instalada em um prédio que vale pela experiência, mesmo para quem não vai às compras. Logo depois, cheguei à Plaza de Callao, com sua vista espetacular do Edifício Capitol (também chamado Carrión, ou “prédio da Schweppes”) — um verdadeiro cartão-postal. Ao lado, o Cine Callao também rende boas fotos.
Rooftop do El Corte Inglés
Quase em frente à praça, o El Corte Inglés tem um terraço com entrada gratuita e vista privilegiada da Plaza de Callao e do prédio da Schweppes. Há também um espaço gourmet ali em cima — não é obrigatório consumir nada, mas parei para uma cerveja e algumas fotos com aquela vista.
Almoço no rooftop do Hotel Riu

Por volta das 13h, já com fome, subi ao rooftop do Hotel Riu — parada obrigatória sempre que visito Madri. A vista de 360° é a mais bonita da cidade, com direito a uma passarela de vidro impressionante. Na época, a entrada em dia de semana custava 5 euros, com fila curta (menos de 10 minutos). A comida é boa, sem ser espetacular, mas o custo-benefício vale muito pela vista.
Plaza de España

Depois do almoço, desci para caminhar pela praça: bonita, limpa, com oliveiras (na minha última visita, carregadas de azeitonas) e o monumento a Cervantes, com Dom Quixote e Sancho Pança — cenário perfeito para fotos. É fácil perder mais de uma hora ali, só apreciando a arquitetura e o urbanismo ao redor.
Templo de Debod

Segui até este templo egípcio do século II a.C., instalado no Parque do Quartel da Montanha, perto da Plaza de España. Foi doado à Espanha pelo governo egípcio para escapar da inundação causada pela construção da represa de Assuã, e reconstruído pedra por pedra em Madri, sendo aberto ao público em 1972. No local, maquetes, vídeos e projeções ajudam a contar essa história.
Palácio Real e Catedral da Almudena

Praticamente ao lado do templo, fica o Palácio Real. Naquele dia, com a tarde já avançando, optei por conhecê-lo apenas por fora — visitar o interior ficou para uma próxima vez. Mesmo assim, é preciso quase uma hora só para apreciar a arquitetura externa do palácio e, ao lado, da Catedral da Almudena, uma verdadeira joia arquitetônica.
El Anciano Rey de los Vinos

Quase em frente à catedral, essa taberna centenária vale a parada. Pedi um tinto de verano e ganhei, de cortesia, uma tapa que me deu fôlego para continuar caminhando.
Calle Mayor, Catedral das Forças Armadas e Plaza de la Villa

Seguindo pela Calle Mayor, logo se avista a pequena Catedral das Forças Armadas — fora do circuito turístico principal, mas com bela arquitetura barroca espanhola. Poucos passos depois, chega-se à Plaza de la Villa, pequena e charmosa, de origem medieval, ótima para fotos.
Mercado de San Miguel

Um pouco mais adiante, na Travessia de Bringas, fica o Mercado de San Miguel. É um point turístico, com preços mais elevados — mesmo assim, vale caminhar por dentro e sentir o clima. Se decidir comer ou beber algo ali, vale a experiência, mas com cautela: dá para achar lugares tão bonitos, e mais em conta, por perto.
Plaza Mayor

Para fechar o dia, a Plaza Mayor merece um tempo de calma para apreciar a arquitetura: uma praça retangular cercada de edifícios de três andares, acessível apenas pelos nove pórticos, com 129 metros de comprimento, 94 de largura e 237 varandas ao longo de toda a extensão. O pórtico mais conhecido é o Arco de Cuchilleros. No centro, destaca-se a Casa de la Panadería e, à sua frente, a Casa de la Carnicería. Sob os pórticos, lojas tradicionais completam um dos pontos mais charmosos da cidade. Parei ali para uma cerveja no La Torre del Oro, um bar bem temático, famoso pelas fotos de touros que decoram suas paredes — e ganhei, claro, mais uma tapa de cortesia.
Dá para fazer esse roteiro depois dos 50?
Com certeza. É um roteiro de um dia inteiro, feito a pé, com paradas para apreciar a cidade, degustar bebidas e tapas pelo caminho — tudo com muita segurança. Madri é uma cidade densa, mas o próprio ritmo do passeio (andar, parar, sentar numa taberna, seguir em frente) faz com que tudo flua sem cansaço excessivo. Para quem viaja depois dos 50, essa é justamente a beleza de Madri: ela permite explorar bastante, no seu próprio tempo.
