Calle de los Suspiros, em Colônia do Sacramento, com rua de pedras e construções históricas

A noite em que fomos donas de um hotel em Colônia, Uruguai

Tem viagens que começam devagar, testando o terreno. A nossa começou em Pelotas, com um café. Parece bobagem, mas não é: quando se viaja com uma amiga que trata o carro como filho único, achar estacionamento vira ritual sagrado. Ela não deixa o carro longe, sozinho, à mercê do mundo — a menos que seja num estacionamento pago, com portão e, de preferência, seguro de vida para o veículo. Levamos um tempinho até encontrar o café perfeito. Foi o primeiro termômetro. Eu devia ter prestado mais atenção nele.

Três amigas em um café de Pelotas no início de uma viagem de carro ao Uruguai
O começo da viagem: três amigas em Pelotas, antes de seguirem rumo ao Uruguai.

A caminho de Punta del Este, descobri a segunda mania: ela discute com o GPS. E perde. Porque, na cabeça dela, quem tem razão é sempre ela — “jura de pé junto”, como se diz — e o aplicativo que se vire com seus algoritmos. Resultado: três horas de atraso e um caminho que só ela e Deus entendem até hoje. Mas a noite compensou: jantar, risadas, histórias de adolescência relembradas como quem folheia um álbum de fotos. Amizade antiga tem esse dom de apagar atraso de estrada.

Montevidéu foi tranquila — só o ritual do estacionamento voltando à cena, discreto, como uma personagem secundária que insiste em aparecer.

E então chegamos a Colônia do Sacramento. Sem reserva. Porque, nas palavras de três amigas otimistas demais: “a gente chega lá e vai ter um quartinho lindo, barato, nos esperando”.

Íamos de hotel em hotel como quem faz teste de elenco. Em vários, nem chegamos a entrar: estavam lotados. Nos demais, as acomodações foram reprovadas por motivos bem concretos — quarto pequeno e sem ventilação, cheiro de mofo, banheiro coletivo e móveis não apenas antigos, mas malconservados. Depois de cerca de dez paradas, eu já me via dormindo no banco de trás — e confesso que a ideia começava a parecer razoável.

Cansada e assumidamente irritada, decidi que na parada seguinte eu nem desceria do carro. Que fossem elas, as curadoras oficiais do bom gosto hoteleiro, resolver sozinhas. Cinco minutos depois: “Desce, vamos ficar aqui”. Desci aliviada, sonhando com banho quente e travesseiro.

O quarto era desanimador, mas, àquela altura, não ter cheiro de mofo e contar com um banheiro privativo já era luxo. Ilusão pura. Havia fios de cabelo nas fronhas — detalhe que dispensava apresentações, mas com o qual o quarto fez questão de nos agraciar. Pedimos para trocar a roupa de cama e lá se foram mais trinta minutos; senti que aquele hotel testava minha paciência por esporte. E, quando achei que nada mais poderia dar errado, liguei o chuveiro para o sonhado banho quente e recebi um fio de água fria — havia uma manutenção programada bem naquele horário, e a sortuda da vez, claro, era eu.

Marchei até a recepção para reclamar. Vazia. No fim do corredor, vinha caminhando o dono do hotel: simpático, bem-humorado, falando um espanhol veloz e sem paciência para traduções. Como éramos as únicas hóspedes e ele estava encerrando o expediente, simplesmente me entregou a chave da porta principal: “Se saírem, fechem bem”.

Viramos, sem pedir, donas de um hotel inteiro em Colônia do Sacramento. Só nós três, o silêncio uruguaio e uma chave com a qual não sabíamos muito bem o que fazer.

Ainda trancamos tudo com zelo de proprietárias e saímos para jantar. Na manhã seguinte, a rotina do hotel voltou ao normal, entregamos a chave e nos despedimos de Colônia com a certeza de que viajar junto é exatamente isso: na hora do perrengue, a gente jura nunca mais sair de casa com ninguém; depois, é a primeira história que a gente faz questão de contar na mesa do bar.


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